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A Igreja e a Justiça Social – Por: André Menezes

Na igreja primitiva, os cristãos mesmo sob ferrenha perseguição do governo romano, eram conhecidos por seu trabalho em defesa dos vulneráveis.

Há muito se teve uma visão equivocada sobre a igreja cristã; nas escolas e universidades, é consenso falar-se sobre a igreja sempre como causadora de massacres, derramamento de sangue e opressão com minorias, tudo isso, advém, de uma filosofia humanista e cientificista, que ganhou foco principalmente no sec. XVIII, com o iluminismo, o que influenciou a criação de filosofias separadas de Deus e não influenciadas por uma cosmovisão cristã. O ser humano passou assim como no Éden, a querer se emancipar do seu Criador, passando a ter uma visão equivocada de si mesmo e do mundo ao seu redor, voltando-se aos ídolos, tornando a glória de Deus semelhante aos mitos (Romanos 1:22-24).

Como as antigas civilizações pagãs, criaram um “deus”, a partir da sua concepção de mundo, o qual não era imutável e pessoal, mas baseado nos seussentimentos e achismos, aceitando e incentivando seus pecados. Passando então a enaltecer o seu ego, na busca por esse “deus interior”, fez-se um papel de desconstrução dos referenciais antigos e das bases da sociedade, as quais foram fundadas nos princípios judaico-cristãos.

Dessa forma, como estes princípios já estavam presentes no imaginário popular, devido a séculos de tradição cristã, os humanistas, utilizando-se do cuidado cristão com os necessitados e vulneráveis, tentam criar uma cultura apartada de Deus e da religião, criando com isso, outra espécie de redenção, valendo-se de uma visão limitada da sociedade, onde de acordo com essa perspectiva, a história deve ser interpretada, com uma sociedade dividida em classe opressora e classe oprimida, ficando-se assim, todos os valores cristãos, bem como, a igreja na classe opressora e muitas minorias em classe oprimida, devendo então, ser feita uma revolução na forma de pensar da sociedade ocidental, retirando-se por completo, os valores cristãos, para se implantar uma sociedade perfeita, criando-se assim, um “paraíso” utópico nesta terra, sendo esta, uma redenção, sem Cristo, cruz, sangue e arrependimento, chamada de “marxismo cultural” deve ser rejeitada por cristãos genuínos, os quais com uma cosmovisão bíblica, influenciaram positivamente a sociedade aos longo dos séculos.

Na igreja primitiva, os cristãos mesmo sob ferrenha perseguição do governo romano, eram conhecidos por seu trabalho em defesa dos vulneráveis. Devido, ao Império Romano, ser movido por uma filosofia de que “uma vida só tinha valor se fosse útil para a sociedade”, abandonavam bebês meninas e com deficiência nas florestas para serem comidos por feras ou encontrados por ladrões, e os cristãos eram aqueles que davam um lar e cuidavam dessas crianças, como seus filhos, devido a entenderem que “todo ser humano é imagem e semelhança de Deus”, devendo ser tratado com respeito e dignidade. Na história podemos encontrar registros que a igreja católica, passou a construir espaços, onde os pais deixavam os filhos indesejados, para serem então, as crianças adotadas por um cristão.

A sociedade dessa época, incentivava a poligamia, e acreditava com isso, que a mulher era de propriedade do homem, os cristãos, por sua vez, elevaram o papel da mulher com o matrimônio, sendo este, sacralizado, o marido devia a esta amor, cuidado e sustento por ela e sua prole, pelo resto da vida, não podendo, portanto abandoná-la. Outrossim, a partir, da redenção em Cristo Jesus, o conceito de igualdade entre homens e mulheres, que foi perdido com a queda, passou a ser novamente restaurado, a partir do entendimento de que homens e mulheres são iguais, criados à imagem e semelhança de Deus, justificados pela graça por meio da fé e receptores de um mesmo Espírito Santo, o qual fez com que as mulheres passassem a ser pregadoras do evangelho e dotadas dos mesmos dons espirituais que os homens, com muitas profetizas, num contexto, onde só havia valor no que era falado por homens.

Os cristãos primitivos movidos pelo respeito a vida humana, o autossacrifício e autonegação em prol do outro, lutaram contra a violência, fazendo-se com isso, mudanças sociais, quando houve a conversão do imperador Constantino ao cristianismo, o qual aboliu as execuções por crucificação, suspendeu as batalhas de gladiores como pena para crimes edeterminou que as crianças abandonadas poderiam ficar em posse dos cristãos.

Além disso, nota-se o papel da igreja como unificadora da sociedade em um só corpo, sem distinção de raça, etnia, gênero, etc, quando um crítico do cristianismo escreveu no 3 século sobre os cristãos: “o objetivo deles é convencer pessoas desprezadas e insignificantes, idiotas, escravos, mulheres, pobres e crianças. Estes são os únicos que eles conseguem converter”, frase que não era de todo verdade, devido, a grande quantidade de pessoas letradas, que se convertiam, no entanto, tal fato nos mostra, que a igreja sempre teve cuidado espiritual e físico com os vulneráveis e desprezados pela sociedade, o que é comprovado por uma carta escrita pelo governador Plínio ao imperador Trajano em 112 d.C, falando sobre a igreja: “muitas pessoas em todas as fases da vida, em todos os níveis da sociedade, de ambos os sexos… espalhadas por todo o território.” Diante disso, o bispo Tertuliano escreveu que a marca da igreja cristã era o amor aos pobres, viúvas, órfãos, em visita aos irmãos nas prisões e em atos de misericórdia em períodos de fome, terremoto e guerras. Corroborando, esse pensamento, o imperador Juliano (332-363 d.C) escreveu: “é um escândalo não haver um único judeu mendigando e de os galileus ateus (cristãos) cuidarem não apenas de seus próprios pobres, mas também dos nossos, enquanto aqueles que nos pertencem, buscam em vão, a ajuda que deveríamos dar”. Outrossim, a igreja financiava o sepultamento dos irmãos pobres, construindo assim, cemitérios para este fim, pois não permitiam que a “imagem de Deus” fosse lançada às feras do campo.

O papel da igreja foi primordial para a educação da civilização ocidental, com a criação dos mosteiros, os quais deram a única oportunidade de estudo, descanso e proteção de guerras, às pessoas na Idade Média, inclusive, em um desses mosteiros, surgiu Gregor Mendel, conhecido como o “pai da genética”. As universidades, hoje antro de doutrinação marxista, tiveram sua origem nas catedrais medievais, que procuravam “entender e explicar a luz da verdade revelada de Deus”. Com a reforma protestante, os evangélicos advindos da Inglaterra, foram os responsáveis pela educação de toda a “Nova Inglaterra”, hoje Estados Unidos, os quais eram alfabetizados, aprendendo sobre o evangelho e valores como: trabalho duro e honestidade. Universidades renomadas como Harward, recebeu esse nome em homenagem a um pastor congregacional de nome “John Harward”, bem como, a universidade Yale, também, foi fundada por cristãos, sendo estas, inicialmente, centro de formação de pastores, posteriormente abrindo-se para os demais alunos, os quais estudavam as diversas áreas da ciência, debaixo de uma cosmovisão cristã.

Os cristãos também influenciaram positivamente muitos governos, com a aplicação de sua cosmovisão às realidades sociais, como, por exemplo: a proibição de queimar as viúvas vivas na Índia, em 1829, proibição da prática de deformar os pés das mulheres jovens na China (1912), persuadir o governo da Alemanha para criação de um sistema de escolas públicas (século 16) e proposta do ensino obrigatório em vários países europeus. Os cristãos também, se opuseram a escravidão e garantindo sua abolição no Império Romano, na Irlanda e grande parte da Europa. Na Inglaterra, Willian Wiberforce, deputado cristão, lutou contra o comércio de escravos, conquistando esta e a abolição da própria escravidão, em 1840. Nos EUA, os sentimentos antiescravagistas, surgiram em muito, devido a pregação de Charles Finney, com isso, os cristãos do sul do país, inclusive mulheres, passaram a fazer protestos e escritos, unidos ao presidente Abraham Lincoln, não cristão, mas formado em uma sociedade fundamentada na Bíblia, conseguiram erradicar a escravidão.

Os cristãos também lutaram e contribuíram com a causa da “liberdade religiosa” e a “separação entre estado e igreja”, Isaac Backus, formulou e divulgou essa posição evangélica, mais do que ninguém na América do Norte, fundando em 1769, a “Associação Warren” para promover essa causa.

Muitas dessas mudanças na Inglaterra e EUA, surgiram devido ao reavivamento evangélico, que ocorreu no no sec. XVIII, conhecido como “O Grande Despertar”, tendo como principal representante: John Wesley, o qual não só salvou almas, mas também levou-as a um senso de justiça social, que salvou a Inglaterra de um período de decadência moral e social, que estava vivenciando, promovendo-se assim, mudanças como: “abolição da escravidão, a humanização do sistema prisional, melhorias nas condições de trabalho em fábricas e minas, disponibilização da educação aos pobres, fundação de sindicatos, proibição ou diminuição de duelos, jogos, embriaguez, imoralidade e práticas animais cruéis”, impedindo assim, com que esta tivesse uma revolução ateísta e sangrenta como a Revolução Francesa. Ademais, o evangelismo transnacional feito, a partir do século XIX, fruto desse avivamento, tendo como principais evangelistas: William Carey e Charles Finney, preocupava-se em fundar escolas, hospitais, centros de formação para enfermeiros e médicos, bem como, introduziram medidas de saúde pública e técnicas mais avançadas de agricultura nos países evangelizados.

Tudo isso foi só um resumo de como a igreja, sem nenhuma ideologia, utilizando-se dos princípios bíblicos, foi capaz de ter um trabalho de justiça social digno de honra na sociedade. Em 1974, foi realizado o Congresso Internacional de Evangelização em Lausanne, Suíça, onde representantes de mais de 150 nações, assinaram o Pacto de Lausanne, sob o tema: “ouça a terra a sua voz”, que tratava da missão da igreja de responsabilidade social, ficando-se definido que: “evangelismo e envolvimento sociopolítico fazem parte da nossa obrigação cristã…na missão da igreja de serviço sacrificial, o evangelismo é primário”, de fato, o evangelho é a única forma capaz de remir o homem do seu problema que gera todas as opressões e distúrbios sociais, tal problema, não é outro grupo social, como na visão marxista da luta de classes, mas o pecado, presente em todas as camadas sociais, devendo a igreja, levar este evangelho que redime a sociedade, pois é propósito de Deus, utilizar a igreja, como uma antecipação da sociedade redimida, para uma sociedade que geme com dores de parto e busca sua salvação em ideologias criadas pelo pecado em solo anticristão. A missão da igreja não é utópica, pois sabemos que enquanto estivermos nessa terra, haverão problemas sociais, mas também é propósito de Deus nos utilizar para cumprir o propósito de sermos sal e luz, levando como expressão de salvação, a prática de boas obras, que consistem em justiça social.

Escrito por: André Menezes, do Diário do País. Instagram: @andrelisboamenezes

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